Por isso, irmãos, por muitos outros motivos, mas também por esse, o que me foi pedido para conversar com vocês foi, primeiro, dizer da alegria de recebê-los aqui na Catedral, que é o coração da nossa diocese. É sempre motivo de muita alegria poder receber os grupos e os padres que vêm visitar a nossa igreja mãe.
É com muita alegria que vos acolho e digo que as portas desta casa estão sempre abertas para que vocês venham, se reúnam, rezem aqui, celebrem conosco e participem da missa com o nosso bispo. Hoje vocês terão a alegria de participar da celebração com ele. As portas da nossa Catedral estão sempre abertas, venham sempre. Para quem está de fora, se estiver muito sozinho lá, venha rezar com o povo aqui também. Que a nossa Catedral possa ajudar vocês e os outros a alimentarem a espiritualidade. Mas o que me foi pedido para conversar com vocês é sobre a vocação do leigo carmelita. Lembrando que quem é da Ordem Terceira não é um religioso consagrado, como é a religiosa carmelita no Carmelo ou como é o Frei Alonso e tantos outros irmãos da ordem. Então, vamos conversar um pouquinho sobre a estrutura, comunhão e missão à luz do Direito da Igreja.
Lembrando que, mais do que nunca, os leigos são chamados a tomar consciência não só de que pertencem à Igreja, mas de que são a Igreja. Você não é simplesmente mais um na Igreja, você é a Igreja, e isso é diferente e deve fazer diferença na sua vida. Ao refletirmos sobre a vocação do carmelita, somos imediatamente conduzidos a um duplo horizonte: primeiro, o mistério da Igreja; e depois, o carisma carmelitano. Não se trata apenas de uma forma de participação, mas de uma verdadeira configuração espiritual e eclesial em que o leigo, sem deixar sua condição secular, é inserido vitalmente em uma tradição que nasce do silêncio, da contemplação e da intimidade com Deus. Esses três elementos são importantíssimos e imprescindíveis à espiritualidade carmelitana: silêncio, contemplação e intimidade com Deus.
O Código de Direito Canônico, especialmente dos cânones 298 a 329, oferece o arcabouço jurídico que sustenta essa realidade. Mas seria um erro reduzi-lo simplesmente a um conjunto de normas. O Direito da Igreja, quando bem compreendido, é a expressão visível de uma realidade invisível: a comunhão. Então, o que se trabalha nestes cânones é a possibilidade de os leigos estarem em comunhão e, vivendo a comunhão, estarem unidos como Igreja. O cânon 298 nos diz que na Igreja existem associações de fiéis que visam fomentar uma vida mais perfeita, promover o culto público ou a doutrina cristã, ou ainda realizar obras de apostolado. Os fiéis podem se organizar e se agrupar em associações, que é um direito assegurado pelo Código. Aqui já encontramos o lugar do leigo carmelita, não como indivíduo isolado, mas como membro de um corpo, de uma associação, de uma fraternidade. A vocação do leigo carmelita é, portanto, essencialmente eclesial e comunitária.
Você não poderá ser Igreja no isolamento. Até os eremitas que vivem solitários não estão isolados; eles estão em plena comunhão com a Igreja. No exercício desse estilo de vida, na resposta à vocação eremítica, eles estão vivendo na Igreja. Por isso, ninguém pode viver autenticamente a vida cristã no isolamento, mas necessita da comunidade. Não se vive o Carmelo sozinho, vive-se em fraternidade. Porque a experiência de Deus no cristianismo nunca é solitária, ela sempre é de comunhão e fraterna. O próprio Jesus deixou claro que onde dois ou três estão reunidos em Seu nome, Ele está no meio deles. Então, vivendo em comunidade, fazemos a autêntica experiência da vida cristã. O cânon 299 reconhece esse direito dos fiéis de se constituírem em associações, o que não é apenas um direito jurídico, mas a expressão da dignidade batismal. O leigo carmelita não é um anexo na Igreja, mas um sujeito ativo, portador de uma vocação própria.
Aqui é necessário aprofundar um pouquinho a respeito do que isso representa. O leigo carmelita vive uma tensão fecunda entre dois polos: o secular e o contemplativo. Isso abrange a sua presença e atuação no mundo e a sua subida ao monte, que é Cristo, para experimentá-Lo e saboreá-Lo. Ele permanece no mundo, mas as realidades temporais do tempo presente não são as únicas que lhe importam. Seu coração, configurado pela espiritualidade do Carmelo, o chama a elevar-se, o que exige uma profunda vida interior. Não se trata de levar duas vidas, como se estivéssemos no Carmelo e depois descêssemos para a vida secular agindo como se não conhecêssemos a Jesus Cristo. Sabemos que Nosso Senhor experimentou, em muitas ocasiões, o confronto com aqueles que viviam a fé de modo hipócrita. Jesus critica com muita severidade os fariseus e mestres da lei porque vê neles a falta de autenticidade. Jesus percebe que ora eles são pessoas de fé, ora engavetam a fé e vivem como se não conhecessem os mistérios do alto. A nossa vida deve ser o reflexo pleno daquilo em que acreditamos, e o que acreditamos vai sempre iluminar e impulsionar a nossa vida de fé. Não se trata simplesmente de equilibrar duas vidas, mas de integrar a vida espiritual que o Carmelo nos propõe à vida cotidiana. Aquele que trabalha, que vive em casa, que se relaciona com as pessoas nos mais diversos lugares, ou que atua numa pastoral da Igreja, é o mesmo que se coloca diante de Deus e se deixa aproximar d'Ele através da experiência do Carmelo.
Ao avançarmos na leitura dos cânones, percebemos que eles falam de dois tipos de associações, as públicas e as privadas. As associações públicas atuam em nome da Igreja, enquanto as privadas atuam em nome próprio, embora estejam sempre em comunhão com a Igreja. As fraternidades carmelitas leigas, em muitos casos, possuem um vínculo especial com a Ordem, o que lhes confere uma identidade particular. Não são apenas associações genéricas, mas expressões concretas de um carisma. E o que é o carisma?. Um Monsenhor definiu muito bem certa vez: o carisma é um jeito próprio de viver cada qualidade ou cada coisa que a vida propõe. Ele dizia que o jogador de futebol tem um jeito próprio de se desenvolver no campo, e não vai usar as técnicas de um jogador de vôlei ou basquete, caso contrário comprometeria o jogo. Esse jeito de ser próprio define o carisma que temos. Nosso carisma carmelitano é diferente do carisma dominicano ou franciscano. Ele foi moldado por figuras como Santa Teresa e São João da Cruz, e não é propriedade exclusiva dos religiosos, mas sim um dom do Espírito para toda a Igreja, do qual o leigo carmelita participa em sua condição própria. E qual é essa condição?. É estar inserido no mundo, nas mais diversas realidades da vida, na família, no trabalho e na sociedade. Onde você estiver, deverá estar presente o seu carisma carmelitano. Você não pode ter duas faces. Embora você guarde o seu hábito no armário, o hábito do seu coração não pode ser retirado nem escondido. O núcleo desse carisma é a busca de Deus no silêncio, a centralidade da oração e a experiência da interioridade.
Contudo, há o risco de espiritualizar demais e esquecer da missão. É preciso subir o monte para a experiência, mas também é preciso descer do monte. O cânon 298 indica que as associações existem também para o apostolado, e não só para o seu próprio bem. Desde o batismo, estamos intimamente comprometidos uns com os outros, com a evangelização e a salvação do próximo, o que nos leva a perceber que a vida de fé é também vida para o outro. Será que as pessoas, ao olharem para você carmelita, que está em cidades como Cruzília, Campanha, Passa Quatro ou Carmo de Minas, desejam descobrir o tesouro que você já descobriu?. Você tem encantado as pessoas com a sua vida?. O leigo carmelita não é um contemplativo fechado, mas alguém que, a partir da contemplação, irradia a presença de Deus no mundo. Se as pessoas correm de nós, é sinal de que não irradiamos Deus, e isso seria uma alienação tão grande que seria melhor nem sairmos de casa se fôssemos viver assim.
A comunhão aparece com força nos cânones que tratam da relação com a autoridade eclesiástica. Temos a graça de que as fraternidades sejam assistidas pela Ordem, tendo o Frei Alonso aqui como representante, assim como já tivemos a presença do Frei Petrônio e do falecido Frei André. A Ordem não deixa as fraternidades desassistidas, reconhecendo a existência de cada uma delas. As fraternidades não são autônomas nem isoladas; existe uma hierarquia a ser considerada e não se pode desconsiderar a autoridade do frei delegado para a assistência espiritual. Além disso, é preciso que haja muita comunhão entre vocês, os párocos e os padres das suas comunidades. Existe a graça de uma autonomia formativa, mas o exercício da missão precisa acontecer na comunhão com quem está na vida paroquial onde vocês estão inseridos. Afinal, a fraternidade existe para servir a Igreja no lugar mais próximo onde ela está situada, que é na sua paróquia. Nenhuma associação vive isolada. Toda a realidade eclesial está inserida em uma estrutura de comunhão que inclui o bispo, a Sé Apostólica, o pároco e o responsável pela Ordem.
A desobediência e a falta de comunhão são uma chaga à vida fraterna, enquanto a obediência e a comunhão não são limitações da liberdade, mas garantias de autenticidade. O leigo carmelita caminha com a Igreja. Já imaginou que problema sério seria se, na minha paróquia, eu não soubesse que um encontro como este estaria acontecendo?. É preciso ter delicadeza com o padre e chamá-lo para perto. Nem sempre será fácil para o padre comparecer; eu mesmo tive reuniões o dia todo e ainda tenho outros compromissos à noite, mas fiz questão de estar aqui com vocês. De toda forma, é essencial haver a proximidade de convidar o padre e pedir permissão para realizar as atividades, pois essa proximidade é imprescindível para a vida cristã. O fato de você pedir autorização ao padre não priva a sua liberdade, mas ratifica e dá garantia de autenticidade àquilo que você faz.
Em um mundo marcado pelo individualismo espiritual, a estrutura eclesial aparece como um antídoto contra a subjetivação da fé. O Padre João Batista Libânio falava sobre isso, dizendo que o nosso tempo vive uma espécie de "supermercado da fé", onde as pessoas vão escolhendo nas prateleiras apenas o que lhes agrada, pulando os limites da Igreja e misturando crenças como se pudessem fabricar a própria religião. Mas na vida cristã, nem tudo nos agrada. A Palavra de Deus é doce ao paladar, mas às vezes precisa ser amarga ao estômago. O remédio bom muitas vezes é amargo, e se não provamos dele, não curamos nossas enfermidades. Precisamos entender que a estrutura que a Igreja propõe é essencial e, ao aderirmos a ela, servimos à comunhão, que não é apenas jurídica, mas espiritual e participativa no mesmo chamado à santidade. E isso nos leva à missão. Por fim, os cânones finais tratam da vida interna e dos estatutos das associações, visando tornar possível uma vida cristã mais intensa e eficaz.
Eu pergunto a vocês: por que se tornaram carmelitas?. (Nesse momento, os fiéis começam a compartilhar seus testemunhos. Um senhor relata que há 30 anos viu uma frase na Basílica do Carmo que dizia: "Ser carmelita é ser de Deus no meio do povo", e isso o levou a se entregar à Ordem de corpo e alma). (Outra pessoa conta que não conhecia a Ordem e descobriu sua vocação após fazer uma peregrinação a Israel e ao Monte Carmelo, indo até onde Santa Teresa estava). (Uma senhora também relata sua experiência. Ela conta que, no começo, achava tudo estranho e não conhecia nada. Ao observar uma conhecida, refletiu muito sobre o sentido daquilo tudo e, anos depois, voltou-se para Deus. Ela se recorda de uma senhora da Ordem que mencionou o seu nome, o que a deixou tocada. Conta que passou a assistir às missas e gostava de sentar na frente para ouvir e participar melhor. Em uma dessas ocasiões, sentiu um chamado divino profundo quando um passarinho pousou em sua cabeça; as pessoas ao redor começaram a murmurar e ela sentiu que Deus queria realizar uma obra nela. Logo depois, uma moça a orientou a dar um tempo de seis meses de discernimento para ver se aquela era realmente a sua vocação, passando a acompanhar na Igreja).
São histórias muito bonitas e há um chamado especial aí. Ninguém pode ser carmelita sem vocação, pois não é simplesmente usar ou não um hábito, é preciso responder a um chamado. O leigo carmelita, sustentado por essa estrutura, é enviado ao mundo como testemunha. A sua missão não é necessariamente extraordinária; muitas vezes ela se realiza na família, no trabalho e nas relações cotidianas, mas sempre com uma marca específica: a profundidade interior. O mundo contemporâneo sofre de superficialidade, e o leigo carmelita é chamado a ser um homem e uma mulher de profundidade, alguém que carrega dentro de si um espaço de Deus. Aqui compreendemos a síntese da estrutura, pois a graça se encarna em formas visíveis: comunhão, porque ninguém se salva sozinho; e missão, porque a experiência de Deus nunca termina em si mesma.
A vocação do leigo carmelita é, em última análise, uma resposta ao chamado universal à santidade, vivido segundo o espírito do Carmelo em plena inserção na Igreja. Não é fuga do mundo nem militância vazia, mas sim uma vida unificada onde oração e ação, silêncio e palavra, interioridade e missão se encontram. Podemos concluir com uma provocação: o mundo não precisa apenas de mais ações, precisa de mais almas enraizadas em Deus. E é exatamente isso que a vocação do leigo carmelita é chamada a ser: um coração contemplativo no meio do mundo, sustentado pela Igreja, vivendo em comunhão e enviado em missão. Amém. Que Deus abençoe a todos para que fiquem felizes com essa reflexão.
Resumo
A mensagem central do texto é que a vocação do leigo carmelita consiste em ser um "coração contemplativo no meio do mundo", unindo uma profunda vida espiritual de oração à vivência cotidiana na família, no trabalho e na sociedade. O orador enfatiza que a experiência da fé não deve ser isolada, pois o cristão necessita viver em comunhão fraterna e em estrita obediência à estrutura e hierarquia da Igreja Católica.
Um resumo geral dos principais pontos abordados inclui:
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Integração entre espiritualidade e vida secular: O leigo não deve viver "duas vidas" ou agir de forma hipócrita, engavetando a fé dependendo do ambiente. Pelo contrário, ele deve integrar os pilares do carisma carmelitano — que são o silêncio, a contemplação e a intimidade com Deus — em todas as suas realidades temporais.
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Comunhão e obediência eclesial: A autêntica vida cristã atua como um antídoto contra o individualismo e rejeita o conceito de um "supermercado da fé", onde o fiel escolhe seguir apenas aquilo que lhe agrada. O orador ressalta que a obediência aos párocos, aos bispos e à assistência da Ordem não é uma limitação da liberdade, mas sim uma garantia da autenticidade da vocação.
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Missão e Testemunho (Apostolado): O carmelita precisa "subir o monte" para experimentar Cristo na oração, mas também precisa "descer do monte" para atuar em comunidade. O testemunho de vida do leigo deve encantar e irradiar a presença de Deus, atraindo outras pessoas.
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Profundidade interior: Em um mundo contemporâneo que sofre de extrema superficialidade, a principal missão do leigo não se traduz em ações extraordinárias, mas na capacidade de carregar um espaço de Deus dentro de si, oferecendo almas profundamente enraizadas na fé.